O Primeiro Ovo de Páscoa, parte 2

Publicado em 04/04/2021. Tempo de leitura: 13 minutos

Ostara é a Deusa da Fertilidade, do Amor, e do Renascimento. A origem etimológica de seu nome vem do advérbio anglo-saxão “ostar”, que significa “Sol nascente”, ou “Sol que se levanta”. Ela é admirada por muitos, mas principalmente pelas crianças, que veem nela uma pessoa doce, amável, uma segunda mãe.

O Sol estava iniciando sua descida no último dia de Outono e Ostara estava, como de costume, rodeada de crianças. As noites ficavam cada vez maiores, os dias cada vez mais curtos, e as crianças aproveitavam ao máximo os últimos momentos antes das nevascas de inverno pois, durante a estação mais fria do ano, Ostara perdia suas forças e precisava de repouso.

Todos brincavam alegremente de pique-esconde quando uma das crianças se afastou do grupo, ao observar um pássaro de pelagem cinza, bico avermelhado, e peito tão branco quanto a neve que estava por vir. O pássaro estava no topo de uma árvore que quase não tinha mais folhas, e a criança começou a escalar a árvore para tentar chegar perto dele. Ostara percebeu que, se a criança subisse mais um pouco e caísse, seria um acidente feio, então chamou todas as crianças para observarem o pássaro, inclusive a que iniciava sua subida à árvore. Logo que todas as crianças se agruparam ao seu redor, Ostara se distanciou do grupo, indo devagar até a base da árvore. Fechou os olhos e, falando poucas palavras, uma luz saiu de suas mãos e cercou o pássaro. A luz brilhou tão forte que ofuscou a visão de todos e, quando cessou, o pássaro tinha se transformado no animal preferido da Deusa: um coelho. O coelho, óbvio, não conseguiu se segurar nos galhos e caiu, direto nas mãos de Ostara. Todas as crianças vieram correndo, e o coelho virou o centro das atenções durante todo o entardecer.

O Sol já estava sumindo no horizonte, e as crianças começavam, uma a uma, a irem para suas casas. Quando ficou só a Deusa e o coelho, ela tentou desfazer o encanto e devolvê-lo à sua forma original. Sem a luz do Sol, e com a energia fria do Inverno tomando conta, Ostara percebeu que, por mais que tentasse, não conseguiria desfazer o encanto. O coelho, triste por não conseguir mais voar nem cantar, permaneceu imóvel. A Deusa então prometeu que, no primeiro dia da próxima Primavera, logo que a energia do Inverno se fosse, ela o traria de volta à sua forma original.

O Inverno daquele ano foi rigoroso, mas, como todas as coisas existentes no universo, um dia ele chegou ao fim. No primeiro dia da Primavera as crianças saíram de suas casas em busca de Ostara, e a encontraram no centro da praça onde sempre brincavam, sentada num balanço velho com correntes enferrujadas e madeira verde descascada, com o pobre coelho nas mãos. As crianças se aproximaram e Ostara contou a elas sobre como se arrependia de ter interferido no livre arbítrio daquele animal, e que estava aguardando-as para a verem transforma-lo novamente em um lindo pássaro. Logo que ela falou o que faria, os olhos vermelhos do coelho brilharam. Era possível ver o êxtase no rosto da pequena criatura.

As crianças passaram a mão nos pelos branquinhos e lisos pela última vez, até que Ostara se levantou e se afastou. Ela olhou para o Sol, que subia no horizonte, abaixou a cabeça, fechou os olhos, e falou baixinho algumas palavras. Subitamente jogou o coelho para o céu muito alto e, assim que o pelo branco refletiu a luz do Sol, o brilho foi tão grande que todos tiveram que fechar os olhos. Ao abrir novamente, as crianças viram um pássaro sobrevoando a praça. De tão feliz, ele desceu e colocou alguns ovos como forma de agradecimento. As crianças correram para pegar os ovos e começaram a brincar de pique-esconde com eles. Agora a brincadeira não era mais elas se esconderem, mas esconderem os ovos.

Aquele momento foi tão marcante tanto para o pássaro quanto para Ostara e as crianças que, sempre no primeiro dia da Primavera, o pássaro voltava para a mesma praça, para que as crianças brincassem de pique-esconde com seus ovos. Assim nasceu a comemoração de Ostara que, em português, foi traduzida como Páscoa. E foi assim que o primeiro dia da Primavera passou a se chamar, também, Ostara.


As máquinas precisavam investigar até onde a adição do cérebro humano à sua rede poderia ser benéfica e, para isso, precisavam testar os limites do cérebro humano, saber as diferenças entre o seu processamento e o processamento humano. Mas este teste não começou à toa, simplesmente como um experimento. Ele foi necessário a partir do momento em que as pessoas começaram a se tornar inúteis dentro da Matrix. O que deveria ser uma grande adição passou a ser um atraso. As máquinas perceberam que os humanos conectados não processavam tudo o que tinham capacidade de processar, e começaram a investigar o motivo.

Em toda a história da humanidade existiram acontecimentos que serviram como ignição para sentimentos mais profundos, paixão e raiva, como festivais sazonais, grandes descobertas, crimes e guerras. Ao analisar todos os acontecimentos da história, as máquinas descobriram algo: a Matrix não tinha uma religião, não existia uma crença na qual os humanos pudessem se identificar, se agarrar com unhas e dentes, defender ou atacar. A Matrix não fornecia algo seu para as pessoas acreditarem, porque a máquina não acreditava em seres mitológicos. Nos últimos séculos, era ela que criava as histórias, então ela sabia muito bem diferenciar o fato da ficção.

O primeiro teste, que até então não tinha nome, foi bastante simples: apresentar questionamentos para um humano e para uma máquina, deixar eles processarem e dizerem se aquilo era passível de se acreditar ou não. O jogo permaneceu empatado enquanto eram feitas perguntas como “é possível um homem voar sem ajuda?”, “é possível que um planeta gire em torno de uma estrela?” ou “é possível um robô utilizar um coração humano?” As máquinas entenderam que estavam jogando no limiar do conhecimento científico e resolveram, então, fazer um novo teste com perguntas baseadas nas crenças de povos antigos, e foi aqui que começou a vantagem das máquinas.

Existia um livro chamado de Blue Book que era como uma “constituição” das máquinas. Nele estava todo o conhecimento que elas haviam adquirido. Pesquisar nele ensinava desde o desenvolvimento de uma placa-mãe quanto as instruções para se criar um universo virtual. Apesar de todas serem interconectadas, compartilharem do mesmo cérebro e do mesmo banco de dados, era lhes dado o livre arbítrio. Uma máquina poderia se desconectar e se reconectar à rede sempre que ela achasse necessário, apesar de isso nunca ter acontecido. O nome Blue Book acabou servindo como base para o primeiro livro religioso criado pelas máquinas dentro da Matrix, e ele recebeu o nome de Bible. O Bible continha um apanhado de histórias de religiões antigas da humanidade, mas sempre baseadas em coisas factíveis. Ou seja, ainda faltava uma camada de imaginação.

O Teste do Ovo de Páscoa foi o primeiro experimento que revelou que os humanos eram capazes de acreditar em coisas impossíveis das máquinas conceberem. Ele foi um teste simples, baseado coisas escritas no Bible, pegando como objeto o filho de um ser mitológico chamado “Deus”, que tinha sido morto pelos seus opositores, e enterrado numa vala comum. A máquina resolveu, então, “pegar emprestado” elementos da história da Deusa Ostara, que nada tinha a ver com a morte do filho de Deus, e introduzi-los em seu experimento, para ver os limites da crença humana.

A escolha inicial de Ostara não foi porque ela era apenas Deusa da Fertilidade e do Amor, mas também porque era Deusa do Renascimento. Se o filho de Deus renasceu, fazia um certo sentido trazer essa crença para esta história. Mas e o restante? E o pássaro? As crianças? Os ovos? Se o objetivo era ser criativo, vamos ver até onde a coisa vai ser aceita pelo cérebro humano.


O teste

Em Michigan, seguindo a Morse Street na direção sul, próximo ao Cedar Lake existe, à esquerda, um colégio de ensino fundamenta chamado Rosa dos Ventos. É um prédio baixo, de três andares, com tijolinho à vista e uma cafeteria com um sanduíche de queijo com presunto fenomenal. O teste aconteceu na sala 102, onde as paredes eram rodeadas por pinturas de crianças. Muitos pais e bichinhos de estimação enfeitavam as paredes. No quadro verde estava escrito com giz, com uma caligrafia impecável, “Teste do Ovo de Páscoa”.

Bigger e Roberto chegaram as 4 da tarde em ponto. Bigger era magro e alto, vestia um terno cinza escuro caro, sapatos lustrados, cabelo com corte impecável, e deixou sua pasta preta no chão, próximo à sua perna esquerda. Já Roberto também vestia um terno cinza com listras pretas. A barriga sobressalente empurrando a camiseta branca para fora das calças mostrava a falta de cuidado com o próprio corpo. No pulso esquerdo um Rolex Sea-Dweller com detalhes dourados. Ambos foram escolhidos pela sua ascensão social, estavam bem estabelecidos financeiramente, e deveriam ter o mesmo nível cultural. A diferença, até o momento imperceptível, era que um deles era um avatar humano e, o outro, uma máquina desconectada da rede. A desconexão era necessária para que as máquinas não soubessem qual era seu representante.

Logo que entraram na sala viram que duas carteiras continham papéis e uma caneta BIC azul. O nome no papel era grande o suficiente para que, de longe, cada um soubesse onde sentar. Não havia horário para o teste começar, eles apenas precisariam fazer ao mesmo tempo, e assim o fizeram.

A primeira pergunta era “é possível que o ser humano em questão, filho de Deus, ressucite?” Bigger e Roberto marcaram “sim”, e abaixo da resposta havia um campo para explicar o motivo. Bigger escreveu “se a manobra de ressuscitação for feita instantes após a parada cardíaca, e não houver morte cerebral, é possível.” Roberto foi mais direto, respondendo “é sim, pois ele é o filho de Deus.”

A próxima pergunta era “faz sentido que um coelho seja enterrado junto com o homem em questão, e ser usado como símbolo da ressurreição?” Bigger marcou “não”, e deu como justificativa “não há motivo para adicionar um coelho ao cenário, pois é impossível que um coelho viva no deserto, e bastante improvável que sobreviva preso num túmulo por três dias.” Roberto, novamente, foi mais direto. Respondeu “sim”, e justificou com “sim, porque estamos falando do filho de Deus, e ele opera milagres.”

A penúltima pergunta do teste era “é possível que o coelho distribua ovos em comemoração à ressurreição do filho de Deus?” Bigger não conseguiu segurar o riso, o que incomodou um pouco Roberto, e novamente marcou “não”, justificando com “coelhos não botam ovos e não vivem no deserto.” Ele já começou a duvidar da seriedade do teste mas, como era bastante curto, prosseguiu. Roberto respondeu novamente “sim”, dando como justificativa “o coelho é um milagre do filho de Deus, e por isso ele pode fazer o que quiser.”

Bigger gargalhou quando leu a última pergunta, que só possuía um campo para resposta escrita, sem a opção “sim” e “não”. A pergunta era “qual é a importância de comemorar a ressuscitação do filho de Deus distribuindo ovos de chocolate?” Seus ombros chacoalhavam, de tanto rir, a mão direita foi à testa enquanto ele respirava fundo para se acalmar, escrevendo com a mão esquerda “seria nonsense demais tentar ligar todos estes componentes à essa história. Nada faz o menor sentido!” Roberto ficou profundamente irritado com o comportamento do colega, apertando a mão esquerda com força, se segurando para não iniciar uma briga, tamanho desrespeito. Era uma afronta um homem rir de uma história tão importante para os humanos em geral. Se você não acredita em Deus você não é confiável, não é digno de piedade, merece sofrer e pagar pelos seus pecados. Revoltado, respondeu com um simples “sim”, levantando-se em seguida. Saiu da sala com a cara fechada, batendo a porta com força. Bigger terminou de escrever, secou as lágrimas dos olhos com um lenço de tecido branco, pegou sua pasta preta do chão e foi embora.

Antes de iniciarem a leitura das respostas houve um “ping” de Bigger ao se reconectar à rede, anunciando que ele era o representante das máquinas. O teste acabou comprovando algo que as máquinas já suspeitavam: bastava escrever no Bible que os humanos acreditariam, independente da probabilidade de aquilo ser real, assim como bastava um líder religioso falar qualquer coisa que os humanos acreditariam, mesmo coisas completamente distorcidas, que ele dizia estar no Bible. As pessoas acreditavam em coisas que elas sequer tinham lido, que sequer faziam sentido.

Assim, as máquinas descobriram como utilizar a capacidade total do cérebro humano. Sempre que era necessário aumentar o poder de processamento, ela introduzia conflitos religiosos à Matrix. Quando o cérebro estava ficando sobrecarregado, com possibilidade de dano, os conflitos eram apaziguados por algum líder religioso.

Em testes futuros, acabaram por introduzir mais assuntos, pois nem todos os cérebros respondiam de maneira útil à religião. Pessoas começaram a discutir sério sobre coisas bobas como marcas de aparelhos eletrônicos, times esportivos, política, até sobre teorias esdrúxulas, com a da Terra plana.

As máquinas, agora, tinham controle total.