O Loop

Publicado em 11/06/2021. Tempo de leitura: 15 minutos

Seus olhos se encheram de lágrima novamente. Ele pegou a jaqueta verde reluzente de cima da cadeira e saiu correndo porta afora. A letra “A” bordada do lado esquerdo do peito brilhava como o sol da aurora, ofuscado apenas pela escuridão da escadaria. Foram doze andares que passaram num piscar de olhos, mesmo com o joelho direito ardendo por conta do acidente na noite anterior. Chegou no topo do prédio ofegante, com os pulmões implorando por mais ar. Olhou atentamente para a rua. Fechou os olhos. Segurou o molho de chaves apertando com tanta força que buracos se abriram na sua mão e sangraram para valer. Levantou o braço direito rente ao corpo, à frente, e abriu a mão. O vento em seu rosto e o vermelho do brilho do sol que atravessava suas pálpebras e chegava às suas córneas sinalizavam que tudo aquilo havia terminado. Mas não.

O molho de chaves caiu como um piano de cauda preto Steinway & Sons ao lado do rapaz de boné vermelho e camiseta branca que saía do prédio. O estrondo foi tamanho que ele achou que fosse um tiro, mas as chaves estavam ali, todas as nove, junto com uma tag de metal, tipo aquelas de identificação de soldados, com sobrenome e o número de um telefone.

O rapaz de boné vermelho e camiseta branca dobrou seus joelhos em direção ao objeto que acabara de explodir no chão, ainda molhado da chuva da madrugada. Sua mão direita pegou o molho de chaves. Olhou para cima, o céu estava se fechando novamente, e sabia que era hora de correr.

De quem é aquele molho de chaves? Por que quase o atingiu? Havia um número, parecia um telefone, então porque não ligar? Assim que chegou ao estágio, pesquisou aquele número e não encontrou nada, nem na lista telefônica. Ligou para aquele número de telefone fixo, não teve sorte. Deu mais quinze minutos, ligou novamente, sem sorte. Ligou novamente perto do horário de almoço. Uma voz feminina, lenta, rouca, atendeu do outro lado. Foi um “alô” cinematográfico, aveludado, que provavelmente cheirava a cigarro mentolado misturado com vodka. Ele perguntou se o molho de chaves era dela, e recebeu um “talvez” como resposta. Ele tentou puxar conversa, mas foi interrompido com um convite nada gentil para ligar após o almoço daquele mesmo dia. Não conseguiu falar mais nada, pois o som contínuo vindo do pequeno autofalante indicava que a pessoa do outro lado da linha havia colocado o telefone de volta no gancho.

Ficou olhando para o molho de chaves imaginando como ela seria. Será que era loira? Se fosse loira, teria cabelos cacheados tipo Tal Wilkenfeld? E se fosse morena? Cabelos lisos e pretos tipo Jenny Lee Lindberg? E se fosse asiática? Seria parecida com Luísa Matsushita? Permaneceu estático, viajando por algum tempo sentado naquele cubículo. O dia estava bem monótono. Se debruçou sobre a mesa, olhando a placas com o sobrenome e o número de telefone. Dormiu ao som de Frank Sinatra, trilha sonora do momento na empresa.

Acordou assustado. Os olhos foram direto para o pulso esquerdo cujo relógio marcava uma hora após o horário de almoço daquele mesmo dia. Pegou o telefone rápido e ligou. Ela mostrou desinteresse em dizer quem era, ou saber quem ele era, mas ficou interessada no molho de chaves. Era perigoso ter suas chaves por aí nas mãos de um estranho, e topou se encontrar com ele no final de semana, contanto que conversassem todos os dias assim que ela chegasse em casa após sair do trabalho, começando naquele mesmo dia. Ele topou.

Ele chegou em casa e viu uma área na frente do seu prédio isolada, parece que alguém se suicidou ali. Não deu bola. Subiu as escadas, entrou em casa, puxou uma cadeira e ficou de frente para o telefone. Esperou para ligar assim que ela chegasse em casa após sair do trabalho. Perguntou como tinha sido, ela respondeu que foi legal. Não deu detalhes do que fazia, apenas dizia como se sentia. O pulso direito doía, então havia uma possibilidade de ela trabalhar com computador. Ela disse que não queria saber nada dele, que a conversa deveria ser uma espécie de monólogo/entrevista. Ela falava o que queria, respondia o que queria. Ele topou.

Na terça ela só atendeu o telefone uma hora além da hora de chegar em casa após sair do trabalho. Não se desculpou pelo atraso, também não disse se tinha realmente se atrasado uma hora, ou se havia chegado em casa e ido direto tomar banho. Como será que é o banheiro dela? Será que ela tem muitos xampus? Será que ela se depila? Como será o box dela? O espelho do banheiro é retangular ou redondo? O café na empresa estava aguado, ela disse. Também disse que havia caído uma chuva torrencial bem na hora de sair do trabalho. Ou seja, pode ser que este tenha sido o motivo do atraso. Ela disse que estava com dor de cabeça, que os olhos doíam. Tinha forçado demais durante boa parte do dia. Ele chegou à conclusão que definitivamente ela trabalhava com computadores. Punho direito doendo, café e dor de cabeça por conta dos olhos? Ela trabalha o dia inteiro no computador. Mas o que ela faz? Ela perguntou se podia mandar uma foto para ele, por email, no dia seguinte, pouco antes de sair do trabalho. Ele topou.

A quarta passou extremamente lenta. Das oito até as oito e quinze se passaram nove dias e meio. O horário do almoço daquele dia tinha sido o mais demorado desde o dia que seu tio o esquecera no colégio, obrigando a diretora a levá-lo para a casa em seu Corcel azul ano 1978. A tarde se arrastou. Ele contava os graus que o sol levava no céu para chegar de um extremo ao outro. Ele já estava em sua bicicleta, rumo à sua casa, quase meia-hora antes de terminar o expediente em seu estágio. A primeira coisa que fez ao chegar em casa foi ligar o computador. Ficou recarregando seu email a cada minuto. Só lembrou do sanduíche quando o cheiro de queimado invadiu o quarto, e ele teve que ir correndo para a cozinha desligar a torradeira. Não tinha mais queijo, teve que comer pão puro. Não se deu ao luxo de preparar nem um achocolatado. Passou a mão numa garrafa de água e voltou para o quarto. Pouco antes do horário de sair do trabalho chegou um email dela. Primeira coisa que ele fez foi abrir o arquivo em anexo e ver a imagem. Ela era linda, muito mais linda que ele a imaginara. O assunto do email dizia que ele não deveria ligar aquele dia, em hipótese alguma. Ele topou.

Na manhã de quinta ele já se viu apaixonado. Seu coração estava acelerado, não conseguia segurar a excitação. A vontade de mostrar a foto dela aos amigos, colegas, aos pais, a desconhecidos na rua, era enorme. Mas ele preferiu guardar para si. Não sabia o que ela faria se soubesse que sua foto havia circulado nas mãos de pessoas que ela não conhecia. Melhor se precaver. Não aguentava ficar nem cinco minutos sem abrir o email e ver os detalhes do rosto dela. Os olhos brilhavam, dava pra ver que refletiam uma janela. Havia cortinas brancas. O fundo estava desfocado, mas parecia uma casa com móveis antigos. Talvez ela morasse com os avós, talvez alugasse um quarto numa casa de uma senhora que setenta e tantos anos que gostava de tomar chá das cinco com leite e limão e deitar cedo, não sendo companhia para ninguém com idade abaixo dos trinta. Naquele dia ela foi mais amigável ao telefone. Perguntou como ele estava, ele conseguiu manter o papel de alguém tranquilo. Ponto para ele. Ela disse que havia passado o dia inteiro respondendo a emails, que não tinha editado quase nada de fotos. Nesta hora ele quase deu um berro, havia acertado que ela trabalhava com computador, e a dor no punho direito era resultado de horas e horas tratando fotos com o mouse. Ela disse que sua pizza preferida era napolitana, da pizzaria Fast Pizza, e ele foi trilhando o caminho que ela deixava, seguindo as migalhas de pão até chegar onde ela queria. A última coisa que ela fez foi perguntar se ele gostaria de pagar uma pizza para ela no sábado. Ele topou.

O sol que apareceu na sexta não era o mesmo dos outros dias. Era muito mais brilhante, muito mais amarelo, bem mais aconchegante. O cheiro da cidade naquela manhã era mais amadeirado, com tons terrosos. Suas costas estalaram ao levantar da cama para ir ao estágio. Tomou um banho demorado observando tudo, do vapor da água borrando lentamente sua imagem no espelho às ondas da madeira do chão que correm para baixo do carpete branco-amarelado com listras marrons de formato irregulares que vão de ponta a ponta no corredor. Fez questão de preparar o café, pois queria treinar para fazer o café mais perfeito para ela. Nunca iria ouvir a frase de que o café está aguado demais, ou forte demais, ou doce demais. Flutuou pelos corredores da empresa. Disse bom dia, boa tarde e boa noite até para os transeuntes. Pensou em almoçar uma pizza da Fast Pizza, mas achou melhor guardar o momento para quando fosse apropriado. Na ligação diária após ela chegar em casa do trabalho a voz dela estava rouca, parecia cansada. O frio craquelante escalou lentamente a coluna dele, pintando de azul-congelante todas as vértebras, pois o que ele não queria é que ela tivesse uma gripe e cancelasse tudo. Ela contou novamente do trabalho, quis saber um pouco sobre o trabalho dele. Perguntou se a pizza da noite seguinte poderia ser sem manjericão. Ele topou.

Acordou antes do sol nascer. Deu uma volta no quarteirão, esperou dar oito horas no relógio de pulso, e foi para a cafeteria da esquina. Era a primeira vez que ele fazia isso. O cheiro era bom. No menu tinha broas de milho, bolo de laranja, cafés fortes, fracos, descafeinados. Tinha uma variedade de brownies e pães com fermentação natural. Pediu uma simples torrada de queijo com presunto acompanhado de café com leite naquele estabelecimento que ele nunca havia reparado. Comeu devagar, lendo o jornal do dia que a cafeteria fornece para seus clientes. Há tempos não sabia do seu time de futebol, parece que as coisas não vão muito bem. Pela janela descobriu uma pracinha, onde duas mães conversam enquanto seus filhos correm ao redor dos brinquedos coloridos. Um cachorro branco com manchas pretas e pêlo longo também se diverte com o trio de crianças. O chão ainda está molhado por conta da chuva da noite anterior. Reparou também numa linda loja de quadros pintados a mão. As paredes são de tijolo à vista, com um pouco de cimento aparecendo. O neon na fachada é chamativo demais para ele nunca ter visto, e ainda assim ele nunca tinha visto. Também reparou que o asfalto havia sido refeito por completo, a faixa de pedestres estava nova em folha. Viu uma academia de ginástica bem em frente ao seu prédio, com muitas meninas e rapazes lindos correndo feito hamsters hipnotizados em suas esteiras motorizadas, cada qual com seus fones de ouvido. Teve impressão de que uma das moças nas esteiras era a dona das chaves. Piscou e ela havia sumido. Ou melhor, mudado de forma. Continuou caminhando. Há uma agência dos correios na esquina seguinte. Na mesma rua também tem uma banca de revistas, uma tabacaria, e uma papelaria que também vendia livros, romances. Fez meia-volta e caminhou novamente até o parque. E ficou lá.

Quando eram dez horas da manhã, já em casa, ligou para o número de sempre. Ela não atendeu. Aguardou até as onze, nada. Seu cérebro trabalhou com a ideia de ela ainda estar dormindo. Aguardou até as duas da tarde, ligou novamente, nada. Seu coração começou a palpitar. Suas batidas chegavam nos ouvidos como bumbos da bateria num show do Metallica percorrendo as veias do pescoço. O suor frio se fez presente na testa e nas mãos, mãos estas que tremiam de nervoso. Começou a entrar em pavor com a possibilidade de ela ter brincado com ele, de ele ter se apaixonado por uma mentira. Ligou a televisão e estava passando um programa de auditório onde o rapaz alegava que a moça havia brincado com os sentimentos, a ponto dele ter pensado em suicídio. Piscou os olhos e o programa na televisão era, de fato, um filme antigo do Charlie Chaplin. Entendeu que seu cérebro estava tentando pregar peças, e decidiu que aguardaria até as seis da noite para ligar. Tomou coragem apenas as seis e meia, ela atendeu. Ela perguntou se podiam combinar de ele pedir a pizza por telefone, pagar no cartão de crédito antecipadamente, e entregar na casa dela exatamente as sete e meia. Deu a dica de que ele poderia usar esse tempo para tomar um banho, se arrumar e, como tinha as chaves em mãos, poderia subir as nove horas para comerem a pizza juntos. Pediu para ser assim porque ela preferia comer a pizza fria, e também teria tempo de arrumar o apartamento para recebe-lo. Ele topou.

Assim que saiu do banho ele ligou para a Fast Pizza para se certificar de que a pizza havia sido entregue exatamente as sete e meia. Confirmaram. Perguntou também se o endereço batia com o que ela tinha informado. Confirmaram. Terminou de passar o balm pós-barba, limpou os microcortes que a lâmina de barbear deixou de presente, colocou a camisa azul marinho de botão e dois bolsos na frente, a mais nova que tinha, e saiu. Chegando no endereço nenhuma das chaves abriu o portão do prédio. Verificou se o número estava certo, estava. Tocou no apartamento que ela informou, atendeu um homem com voz grossa e impaciente. Perguntou pelo nome dela e recebeu como resposta um xingamento e o aviso para não tocar novamente. Ligou para a Fast Pizza, perguntou se a pizza tinha sido mesmo entregue. Informaram que uma moça estava aguardando na frente do prédio. O motoboy acha que ela entrou após receber a pizza, mas não tem certeza. Ele foi correndo para sua casa, com os olhos vermelhos. Decepção, tristeza, raiva, calafrios. Entrou em casa e a primeira coisa que fez foi ligar para ela. Não atendeu. Tentou mais algumas vezes. Silêncio. Chorou até desmaiar, e só acordou na tarde de domingo.

O sol estava quase se pondo, ele resolveu voltar novamente no prédio dela. A mesma voz do outro lado. Desta vez ele não falou nada, e ainda assim recebeu um palavrão como resposta. Correu para casa, mas não tinha forças para subir as escadas. Foi até a cafeteria. A moça de cabelo crespo negro o atendeu da forma mais gentil e doce que podia, pois viu nos olhos dele amargura e tristeza de alguém que tinha recém levado um pé na bunda. Comeu seu hamburguer com fritas e Coca-Cola. Saiu, passou na tabacaria, comprou vodka. Subiu no escorrega da pracinha. Já era tarde da noite. Começou a correr feito um lunático ao redor dos brinquedos. Tropeçou e caiu em cima do joelho direito. Doeu. Doeu menos que a dor dentro de seu peito, mas doeu a ponto de não continuar mais correr. Ficou até quase amanhecer na praça. Voltou para casa correndo, entrou no seu quarto e tentou ligar para ela mais uma vez. Sem sucesso.

Seus olhos se encheram de lágrima novamente. Ele pegou a jaqueta verde reluzente de cima da cadeira e saiu correndo porta afora. A letra “A” bordada do lado esquerdo do peito brilhava como o sol da aurora, ofuscado pela escuridão da escadaria. Foram doze andares que passaram num piscar de olhos, mesmo com o joelho direito ardendo por conta do acidente na noite anterior. Chegou no topo do prédio ofegante, com os pulmões implorando por mais ar. Olhou atentamente para a rua. Fechou os olhos. Segurou o molho de chaves apertando com tanta força que buracos se abriram na sua mão e sangraram para valer. Levantou o braço direito rente ao corpo, à frente, e abriu a mão. O vento em seu rosto e o vermelho do brilho do sol que atravessava suas pálpebras e chegava às suas córneas sinalizavam que tudo aquilo havia terminado. Mas não.

O molho de chaves caiu como um piano de cauda preto Steinway & Sons ao lado do rapaz de boné vermelho e camiseta branca que saía do prédio. O estrondo foi tamanho que ele achou que fosse um tiro, mas as chaves estavam ali, todas as nove, junto com uma tag de metal, tipo aquelas de identificação de soldados, com sobrenome e o número de um telefone.