O Guri

Publicado em 18/06/2021. Tempo de leitura: 7 minutos

Eles desabaram na cama assim que entraram no quarto. Ele olhou pra ela e sussurrou “vamos fingir que estamos sozinhos, pro Júnior não vir correndo.” Júnior é uma criança super feliz e tranquila, adora brincar com tudo o que encontrava pela frente, criativa ao extremo, e ligada em 440v. Eles se olharam, por um instante lembraram de como era a vida sem o pequeno, deram um selinho e ficaram esperando a pestinha entrar pelo quarto correndo, subir na cama e falar “tetchi”. É assim que ele faz sempre que quer mamar no peito, e ele gosta de mamar o tempo todo.

Mas a casa seguia em silêncio, eles continuavam deitados, ouvindo o barulho da própria respiração. Ela levantou a cabeça, olhando para o nada, e disse “eu acho que o guri está aprontando algo na sala! Ele está quieto demais!” Se olharam, o cansaço do semblante foi dando lugar à preocupação. “Vou lá!”, disse ele. Seus olhos varreram tudo na sala e nada do pequeno de cachinhos castanhos e camiseta do Superman. Seguiu em direção à cozinha e também nada. Voltou para o quarto, “não estou achando o guri!” Ela levantou e chamou uma, duas, três vezes, e nada. Olharam no banheiro, na cozinha, dentro dos armários. Nada. A porta da frente estava trancada, janelas fechadas, impossível ele ter saído. Procuraram pela casa toda por mais uns 20 minutos e nada. “Meu Deus, o que a gente faz?”, ele perguntou com olhar apavorado. “Liga pra polícia! Nosso filho sumiu!” ela respondeu, tentando não berrar.

Policial que atendeu a chamada pegou todos os dados do pai e disse que enviaria uma viatura para a residência. Eles resolveram sair porta afora e procurar pelo bairro, berrando o nome da criança. O policial falou que a viatura levaria uma média de 40 minutos para chegar, então era melhor adiantar as buscas. Vai que o guri estivesse no portão da casa da vizinha tentando brincar com o cachorro?

Não havia quase ninguém na rua, e as pessoas que encontraram afirmaram não ter visto nenhuma criança andando sozinha. Procuraram no parque em obras, que fica uma quadra de casa, foram até a padaria, creche, lanchonete, ponto ônibus, até que deu 35 minutos da ligação e resolveram voltar para casa.

Assim que cruzaram a esquina viram que a viatura já estava no portão do prédio esperando. Se aproximaram, ela chegou perto mas não conseguiu falar. O marido começou a descrever o menino com detalhes, até o policial interromper e falar “olha, é mais fácil me darem uma foto dele! Mande via mensagem para este número de celular.” O pai procurou fotos do filho no telefone, mas não achou nenhuma. Ele não era muito de tirar fotos, isso sempre foi coisa da mãe. Ela disse que o celular dela estava em casa, e entrou correndo para pegar.

Subiu as escadas correndo, de dois em dois degraus. A porta de casa estava destravada para, caso o guri chegasse, pudesse entrar. Entrou, pegou o celular, que estava em cima da toalha de crochê na mesa da sala, desbloqueou com a digital e abriu o rolo da câmera. Muitas fotos dela e do marido juntos, dos pratos de comida “diferentona” que faziam quase todas as noites, alguns prints de memes da internet, mas nada de fotos do filho. “Não pode!”, ela berrou tão alto que os policiais e o marido lá de baixo, do portão do prédio. Todos eles subiram correndo, porque talvez ela tivesse encontrado o filho desacordado. Assim que o marido entrou em casa viu ela em pé na sala, celular no chão com a tela rachada. Ela olhou pra ele, soluçando, “eu não tenho fotos do meu filho”, falou baixinho, antes de berrar “eu não tenho fotos do meu filho!” O policial pediu para ela sentar, beber uma água com açúcar, e pediu documentação da criança, algo que o pai foi no quarto buscar correndo.

Como o guri tem menos de 2 anos, só existe a certidão de nascimento. Ela deveria estar no armário do quarto, junto com a caderneta de vacinação e outros exames. Procurou na prateleira de cima e não tinha caderneta, exames, nem mesmo a mochila de fraldas. Ele então abriu uma das gavetas com as roupas do menino e encontrou perfumes diversos, embalagens de camisinha, alguns brincos e pulseiras. Abriu a segunda gaveta e encontrou camisetas tamanho adulto. Abriu a terceira gaveta e tinha uma carteira velha vazia, desbotada, relógios, alguns celulares antigos. Sentiu uma tremedeira, as gotas de suor gelado escorrendo pela nuca, seguindo a espinha. A boca seca, olhos marejados, passou a mão no cabelo e sentou na cama.

Um dos policiais entrou no quarto e, quando ia pedir os documentos, viu os olhos apavorados do pai e perguntou se estava tudo bem, recebendo como resposta “meu filho sumiu!” O pai estava sentado, rosto completamente lavado, mãos trêmulas. A esposa entrou no quarto e perguntou “achou?” Não precisou ouvir resposta alguma, só olhou para as gavetas abertas e nem sinal das roupas do pequeno. “Minha mãe tem fotos dele! Eu sempre mando fotos e vídeos!” disse ela, com cara de surpresa, pedindo o celular do marido para ligar.

“Mãe, teu neto sumiu!”, foi a primeira coisa que disse após ouvir o alô da mãe. “Quem?”, a mãe perguntou. “O Júnior mãe! Ele sumiu! Você tem fotos dele! Me manda agora!” disse ela, com a voz em desespero. A mãe novamente perguntou quem era Júnior, e a filha pediu para ela parar de brincadeira e mandar logo, porque ela precisava dar uma foto dele para a polícia. “Que neto?”, perguntou a mãe, e ela deixou o telefone cair no chão. “Ela não se lembra dele”, disse com os olhos cobertos de lágrimas, olhando para o marido incrédula.

Os policiais falaram que não podiam fazer nada, pois não havia qualquer indício que havia uma criança sumida. Ela suplicou para que acreditassem, implorou, disse que faria qualquer coisa. O pai não conseguia abrir a boca, não conseguia se mexer. Ela agarrou com força o braço de um dos policiais, berrando, pedindo para que ajudassem. O policial tirou a mão dela também com força e falou “se você continuar vou lhe dar voz de prisão! Vocês são dois lunáticos!”

Os dois desceram junto com os políciais e ficaram acompanhando as luzes piscantes azuis e vermelhas seguindo a rua, indo embora, em direção ao infinito. Agora foi a vez dela travar, não conseguia falar nada, fazer nada, nem fechar o portão. Aliás, não conseguia sequer pensar em subir as escadas novamente. Ficou ali, estática, braços perpendiculares ao corpo, ombros duros, observando o reflexo das luzes nos muros das casas, se afastado pouco a pouco, junto com a esperança que ainda tinha em encontrar o guri.